terça-feira, 1 de agosto de 2017

O EXORCISTA- MAIS REAL DO QUE SE PENSA...



   Creio não ser segredo para ninguém que a trama de O Exorcista seja inspirada num caso verídico, afinal de contas, esse foi o grande trunfo na publicidade do filme durante seu lançamento em 1973. Evidente que, após vista, a produção magistralmente dirigida por William Friedkin amparada no livro de seu xará William Peter Blatty acaba conquistando o espectador por outros aspectos como, por exemplo, as brilhantes atuações do elenco e, principalmente, os efeitos especiais que, longe de datados; parecem cada vez mais críveis atualmente, quando é rara uma produção que não abuse da computação gráfica na hora de representar fenômenos sobrenaturais. E, especialmente neste filme, há de se tirar o chapéu para a verossimilhança das sequências em que a jovem Regan está possuída. Até hoje, por mais que não parem de lançar longa-metragens sobre possessão demoníaca, nenhum chega aos pés do realismo impresso em O Exorcista. Desde a voz gutural da menina, que permanece até quando está de boca fechada para reforçar a ideia de um fenômeno mediúnico descomunal completamente fora de controle (que é uma mescla de vozes feminina e masculina com grunhidos, urros e rosnados de diversos animais) aos efeitos presentes nas representações de poltergeist; tudo é espetacularmente reproduzido graças aos bons e velhos efeitos práticos.




   Minha relação com este longa-metragem sempre foi bastante peculiar. Quando criança, ao mesmo tempo em que nutria certa atração por ele, pois sempre fui fascinado por efeitos visuais, sentia calafrios só de ouvir seu nome. Bastava uma propaganda de 20 segundos anunciando que ele seria exibido no SBT para que, imediatamente, eu corresse desesperado da sala para a cozinha, onde encontraria minha mãe.
   No final da adolescência, me recordo de ter desafiado a mim mesmo para assisti-lo sozinho. Então, durante um fim de semana em que meus pais viajaram, me desvencilhei dos amigos na rua, parti para casa e meti a fita no videocassete. Obviamente, não o fiz à noite, e sim numa linda tarde ensolarada, já que realizar a façanha depois das 19:00 seria exigir muito de um jovem que desconhecia o poder de Cristo e crescera testemunhando a um ente querido vivenciar o mesmo drama da personagem Regan MacNeil.
   Já em minha vida adulta, tive a oportunidade de acompanhar o relançamento da obra na telona em uma versão estendida chamada O Exorcista- A VERSÃO QUE VOCÊ NUNCA VIU.  Como o cinema ficava a pouco mais de 1 km de onde eu morava, tinha o costume de ir e voltar a pé. Naquele dia não foi diferente. O problema é que peguei a última sessão (que terminou por volta da meia-noite). Ou seja, por uma noite voltei a ser o garotinho medroso que corria desesperado para junto da mamãe.




   Hoje, após décadas de convertido e maduro o bastante para conseguir enxergar as camadas que algumas produções cinematográficas dispõem, resolvi fazer algumas observações sobre O Exorcista que julgo pertinentes, a começar pela frieza espiritual inerente à fé católica que o longa denuncia. Embora, à primeira vista, isso possa aparentar uma dessas banais críticas esquerdistas à uma instituição que erroneamente costuma-se interpretar como uma representação do cristianismo, entendo que especificamente aqui não seja esse o caso. Qualquer um que já tenha sido católico, conheça católicos, estudou história do catolicismo ou escute testemunhos de ex-padres, saberá que o relativismo típico que sempre foi marca registrada da teologia católica, bem como dos estilos de vida adotados por seus fiéis, é algo notório no seio da sociedade.
   Desse modo, o que se vê no núcleo eclesiástico desta película são padres (especialmente Damien) dados ao alcoolismo (um alcoolismo que, em certo instante, passa longe do social, diga-se de passagem). Entretanto, há uma característica expressa na jornada dos três sacerdotes responsáveis pela movimentação da trama que implicitamente indica a razão do apreço pela bebida: o peso do sacerdócio. Vemos isso constatado tanto nas jornadas trágicas de Damien e Merrin (o exorcista a quem é dedicado o título da obra), quanto na proximidade de Dyer com a classe artística (corretamente representada sob doses de boemia e ateísmo na cena da festa e no comportamento da personagem Chris MacNeil de quem, aliás, Dyer é amigo íntimo). Enfim; o diálogo de Damien com um padre cheio de conflitos, sua frustração por ironicamente jamais poder se entregar à profissão que escolheu justamente devido ao meio escolhido para conseguir financiar seus estudos (o sacerdócio), a medicação que Merrin precisa tomar sempre que suas memórias traumáticas reacendem, a solidão patente na face de cada um deles (mesmo quando rodeados por outras pessoas), o desapego à própria vida presenciado pela dupla de exorcistas, o ceticismo crônico imanente no clero romano... diversos elementos ao longo da narrativa, quando reunidos, mostram sujeitos duramente afetados pelo que escolheram ser. Ora, se a ambiência sombria que acompanha esses homens não se configura um ataque à prisão sem grades que é a vida dos sacerdotes romanistas, eu não sei o que é uma crítica. Aliás, um exemplo real e conhecido dos brasileiros é o drama sofrido pelo Pe. Marcelo Rossi, que recentemente desenvolveu um quadro de anorexia durante sua luta contra a depressão.
   A ideia de que o catolicismo é uma religião rica em rituais e tradições, porém espiritualmente vazia permeia toda a película (e, coincidência ou não, na horrível continuação produzida três anos depois, este aspecto é ainda mais realçado quando o Pe. Merrin é tido como herege pela igreja ao ser constatado que o livro que vinha escrevendo tratava a possessão demoníaca como algo real). Como não ficar espantado, por exemplo, com a lucidez da cena em que o demônio finge estar sendo queimado pela falsa água benta? Não é isso o que o vemos realizar nos inúmeros cultos "de libertação" que existem por aí? Aproveitando o ensejo, deixo este link onde dissertei mais profusamente a respeito da teatralidade de Satanás.




   Conforme pincelei acima, um dos fatores que me impedem de enxergar uma propaganda socialista (semelhante a Spotlight) na visão nua e crua que O Exorcista nos entrega acerca do comprometimento de seus sacerdotes com a fé cristã vem a ser precisamente o desenho de uma elite moralmente liberal retratada de modo praticamente caricato. Se não bastasse tamanha ousadia por parte da equipe criativa do filme em adaptar tal detalhe da literatura homônima, acompanhamos a entrada do mal numa família ateia espiritual e socialmente fragilizada por um divórcio. Com um pai distante de casa que não dá a mínima para o lar que abandonou e uma mãe passando dias inteiros trabalhando, a garota acaba encontrando a atenção de que necessita em algo que costumeiramente acaba passando por amiguinho imaginário das crianças, porém nem sempre o sendo. A inversão da ordem biblicamente estabelecida por Deus naquele lar, bem como sua ausência, foi a porta de entrada para o demônio que inicia uma comunicação com a mocinha através de outra coisa geralmente subestimada pelas mentes pós-modernas: um tabuleiro de ouija (cuja dinâmica costuma ser emulada pela juventude nas brincadeiras do compasso, da caneta e do copo). Deste momento em diante é um pulo até que Regan esteja completamente tomada pelo espírito maligno e passe a sofrer sob o domínio diabólico. Diga-se de passagem, presenciamos uma defesa indireta da sacralidade inerente à virgindade e à honra devida aos pais se considerarmos que o demônio, sem qualquer justificativa aparente, e sim pelo simples prazer de corromper a criação divina; deflora Regan com um crucifixo para, em seguida, forçar Chris a por a boca na vagina de sua filha.  




   Agora, uma das questões mais enigmáticas da obra certamente é seu término, pois como disse William Friedkin numa entrevista, "propositalmente não quisemos deixar claro, entre o bem e o mal, quem vence no desfecho da narrativa". Particularmente, entendo que Friedkin tenha sido apenas politicamente correto. Ao menos no que tange ao núcleo composto pelas pessoas diretamente envolvidas naquela trama, a vitória nitidamente é do mal. E nem preciso apelar à uma argumentação soteriológica em tal dedução. Trabalhando unicamente com as informações disponibilizadas pelo roteiro do longa, podemos perceber que o demônio conseguiu o que desejava. Para isso é necessário compreender uma coisa vital à história, porém exposta quase que subliminarmente durante suas duas horas: o passado do Pe Merrin. Digo "quase subliminarmente" porque em instante algum recebemos maiores detalhes quanto ao que levou o personagem à dependência de remédio para os nervos. Tudo o que testemunhamos é sua estranha reação de espanto logo no início, quando por acaso ele desenterra a cabeça da estatueta de uma entidade pagã (sumério, para ser mais preciso), algo que o deixa perturbado levando-o a fazer uma visita ao que parecem ruínas de um antigo templo no qual repousa uma estátua em tamanho real do mesmo ser: Pazuzu, o rei demônio da antiga mitologia mesopotâmica. Enquanto encara a face da estátua, o padre arqueólogo tem sua atenção atraída para dois cães perto dali que começam a se engalfinhar furiosamente. No encerramento o prólogo, temos a sensação de que um novo filme começa. Cenário e personagens mudam, bem como todos os elementos do prólogo permanecem esquecidos até o ressurgimento do arqueólogo nos minutos finais.
   Lógico que, durante a narrativa, temos a sensação permanente de que o demônio alojado na mocinha seja aquele mesmo representado pelas esculturas do prólogo. Contudo, resta a pergunta: por que a entidade se deslocaria do Oriente Médio para o sul do EUA? Não posso deixar de pontuar aqui o brilhantismo do roteiro em fugir de um clichê típico do gênero no qual a garota viesse a encontrar no sótão da casa nova uma estatueta parecida (ou a mesma) e passasse a brincar de boneca com ela. Algo do tipo seria muito mais prático e fácil de ser assimilado pelo espectador, mas apelando para um certo realismo (que pode, inclusive, ter muito bem sido retirado do lendário caso real), a trama entende que seres espirituais não possuam barreiras físicas ou geográficas, tampouco que eles precisem de objetos ritualísticos para se manifestarem em famílias distantes do Criador e, consequentemente, ausentes de valores bíblicos.
   Voltando a Merrin, no final do filme é que temos um vislumbre a sugerir o encaixe das peças do quebra-cabeças quando é mencionado um exorcismo épico realizado há dez anos por ele ao longo de meses na África. Percebam o clima lúgubre na cena em que ele recebe a carta de convocação para o exorcismo de Regan... Se estivesse militarmente fardado, poderia tranquilamente ter tido aquele take usado num filme de guerra, pois é o que lemos naquele instante: a convocação para uma guerra. Um confronto que seus olhos mostram o tempo inteiro ser praticamente impossível de vencer (cada movimento do personagem remete à uma pessoa física e mentalmente devastada), já que, se ignorarmos o fato de que o arqueólogo não é um cristão cheio do Espírito Santo, ainda há as implicações físicas: a idade avançada, o trauma (provavelmente contraído naquele exorcismo feito na África, o que o teria levado a abraçar a arqueologia como válvula de escape) e o medo. Temos, nesta etapa do roteiro, duas novas críticas à instituição católica, que se mostra fria e desumana ao pegar uma figura em frangalhos e usá-la como resposta contra algo que, no mínimo, poderia se tratar de um caso grave de insanidade e, sendo assim, não menos perigoso. A causa de tamanha covardia não é menos vergonhosa e se encontra explicada através dos padres jovens da trama (Damien e Dyer), ambos reflexos de uma geração cada vez mais racionalista. Que tal fenômeno esteja impregnado no mundo secular é até compreensível, mas a partir do instante em que falamos de um segmento religioso, torna-se inadmissível a ideia de que os responsáveis por teoricamente religarem o homem a Deus não passem de ateus enrustidos que se utilizam dos recursos disponibilizados pela instituição para se formarem e terem um ganha pão vitalício. Omissa como quase sempre, a igreja prefere sacrificar seus padres idosos (os únicos que, românticos, pertencem à uma época em que se acreditava no mal metafísico) apenas para oferecer aquilo que a sociedade espera de uma instituição dita cristã; do que mexer com aqueles que ainda são produtivos ao Vaticano. Pior ainda é quando escutamos da boca de um dos cardeais que o exorcismo na África "quase acabou com Merrin". Em outras palavras, os canalhas tinham total consciência de estarem enviando para o front um veterano traumatizado (um deles, inclusive, nem sabia que o arqueólogo também era exorcista tamanho era o tempo em que Merrin encontrava-se inativo). Por sinal, não é curioso como o caso da avacalhação feita na imagem de Maria não é solucionado? Dificilmente Regan teria saído de seu quarto de camisola com aquela cara de monstro para realizar tamanha "obra-prima". Entendo que só possa ter sido algum sacerdote extravasando o vulcão reprimido que abriga na alma.
   Para elucidar o porquê de acreditar que o mal sai vitorioso no filme, me atenho às escassas minúcias que nos são fornecidas. Onde começa a história? Qualquer um responderia: "nas escavações no Iraque". Eu respondo: "no árduo exorcismo que Merrin protagonizou na África." Somente então podemos ir para a sequência inicial e compreendermos que o abalo emocional sofrido pelo arqueólogo ao achar a estatueta suméria está diretamente ligado ao seu passado (o episódio que "quase acabou com ele"). De alguma forma que não nos é revelada, o padre traçou um link entre os dois elementos. Teria a entidade feito algum tipo de aparição durante o exorcismo onde apresentou aspectos parecidos ou iguais aos da imagem de Pazuzu? Ou será que a entidade que possuiu a vítima africana não seria representada no paganismo afro mediante imagens semelhantes ou idênticas às de Pazuzu? Há também a possibilidade do demônio africano simplesmente ter se apresentado como Pazuzu na ocasião. Identificada a ideia do eixo da trama ser a antiga rixa entre Pazuzu e Merrin, ao menos para mim fica claro que o demônio escolheu entrar em Regan para atrair o velho padre de volta ao ringue e, desse modo, obter sua revanche pela derrota na África. Todavia, mais sinistro do que isso é constatar o domínio de Satanás sobre a cúpula católica, já que o demônio jamais jogaria com a possibilidade remota de justamente Merrin ser o convocado para exorcizar Regan e, ainda por cima, após o padre ter retornado há pouco tempo para o EUA. Ora, quem conhece o mínimo sobre mundo espiritual sabe ser ridícula a ideia de um espírito maligno ir embora só porque seu hospedeiro tomou uma surra de alguém. Mais patético ainda é pensar que o demônio não voltou porque, de algum jeito, teria permanecido aprisionado ao cadáver de Damien por ele tê-lo "forçado" a trocar o corpo da menina pelo seu para, logo em seguida (num lampejo em que conseguiu obter o controle de sua mente), suicidar-se jogando-se pela janela. Definitivamente, a morte de Damien não esclarece o sumiço da entidade na vida da família MacNeil. Não acontece rigorosamente nada no final do longa que pudesse impedir o ser diabólico de incorporar novamente em Regan. Portanto, uma vez reconhecido o histórico entre Pazuzu e Merrin, fica impossível concordar com a alegação do diretor quanto a um final aberto. O demônio obteve o que lhe interessava: vingança pela misteriosa derrota sofrida na África. Entretanto, em momento algum vemos mãe e filha se convertendo ao Evangelho (até porque, na trama, não há quem possa pregar o Evangelho) e, sem reconhecer a Cristo como seu único e suficiente Senhor e Salvador, todos somos reduzidos a hospedarias ambulantes para demônios independente da entidade em questão manifestar-se ou não (sendo que, no filme, o demônio só se manifesta daquele jeito escancarado porque era do seu interesse chamar ao máximo a atenção para o caso e, com isso, atrair aquele que desejava matar).
   


   E, para aqueles que leram ao artigo que escrevi sobre o filme Fragmentado (link aqui), certamente não haverá surpresa alguma quando virem O Exorcista indiretamente também sugerindo que a personalidade duplicada seja de ordem sobrenatural, visto ser esse o diagnóstico inicialmente dado a Regan.





   Em 1999 o jornalista Mark Opsasnick publicou uma pesquisa que afirma ter feito em cima do caso real que teria inspirado o livro. Nela, ele diz ter entrevistado algumas testemunhas do caso que serviu de base para a adaptação do livro, sendo que um dos entrevistados, o padre Walter Halloran, negou que fenômenos paranormais tenham ocorrido. Ora, diante de toda a realidade física e espiritual retratada nos elementos periféricos à jovem possuída da obra que foram apontados, fica a pergunta: faz alguma diferença se ela rodava a cabeça ou tenha, de fato, levitado? 

   Leandro Pereira 





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